A ROSA DO FIM DO MUNDO ( CÂNTICOS PROFÉTICOS )

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Vampiros à solta














O vampiro anda à solta
Sugando o breu da noite
E nossas tripas
Sem piscar os olhos.

O tempo bate à porta,
Com olhos do antigo,
Mutando nossos genes,
Amaldiçoando a terra.

O camaleão anda à solta,
Agora sem farda,
Rindo sem mostrar os dentes,
Mutilando nossos corpos.

O facínora anda à solta,
Travestido de liberdade,
Exorcizando nossos sonhos,
Extinguindo a terra.

E sigo a voz dos ventos
Junto às andorinhas
Rumo ao infinito
Em busca do agora.





imagem retirada da internet:


quinta-feira, 25 de outubro de 2012

A chama



















Un paraíso para Rousseau, de Petri Sánchez. Copyright






            A chama



Não é mortal a pura chama:
Incendeia as asas que viaja no tempo
E sobrevive, ainda, a quem ama,
Que não faz da vida um desalento.

Ainda é tempo para colheita
– e os homens não teceram suas cestas
Que carregarão as sementes: da boa nova,
Semeando o universo inteiro.



quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Rodamundo








Como ao ianomâmi,
Dilaceram o meu corpo, 
Neste silêncio milenar.

Náufrago, solitário,
Num mar ondulante...
Na rapidez da vida.

O rajar dos ventos?
Vela não içada -
A caminho do precipício.

Breve é a alma humana:
Que despreza sua semente,
Tornando a terra infecunda.





marília,1981



foto:  Criança ianomâmi

segunda-feira, 23 de julho de 2012

ACÁCIA DOURADA



Minas é uma palavra montanhosa
Drummond


A Antônio e Emília Rossetto, meus avós, in memorian.


Extasiante acácia dourada do brejo mineiro,
No chão de minha terra goteja
O suor do povo moreno...
Oh! Imensidão, transbordante do céu,
Enchente, num Big Bang de estrelas.
No barulho do grilo, no mato, cantante traz
O cheiro da terra, num balbuciar de contentamento.
E deitar sob a lua, trazendo pontos distantes
Confundidos como vagalumes da roça
Entre o frescor das ervas, feitos lampejos.
Rememorando os cantos da minha infância,
Tão perto e distante ao mesmo tempo,
Pouco a pouco se esvai e se apaga
Na memória do meu silêncio.



Ode ao desassossego

“Estou na estúpida velocidade
de um cometa”

Francisco Carlos Fernandes


Meras esperanças como sonhei...
Nos labirintos deveras tornei,
Entre esplendorosos campos,
Onde ceifei por vários anos

Sem esperar por quase nada.
Somente a noite estrelada,
Ouviam meus loucos lamentos,
Sussurros de tolos pensamentos.


Não percebia em que no abrupto
Passar de um infinito ato,
Via passando a pouca idade
Num adeus a minha mocidade:

Entorpecendo os sentimentos,
Lapidando descontentamentos:
Não percebe a humanidade
- Como dói sentir a saudade.

















Homenagem à Vicente Cechelero,
poeta: in memorian









quinta-feira, 19 de abril de 2012

RESSONÂNCIA








À UNE, de outrora.






Não quero ver o mal
A sacudir a multidão de novo
Para o velho caminho chamuscado
Pelos canhões dos poderosos na noite.

Articulando a miséria do povo,
A cobiça do moço e a escravidão
De nossas tão novas consciências
Tiradas à força da inocência.

Retornemos às ruas
O operário, os estudantes,
Para celebrar a velha lembrança...
De um novo dia a surgir.













Marília, maio de 1982


















imagem retirada da internet:

quarta-feira, 28 de março de 2012

Rintrah
















Agora a furtiva serpente caminha
em suave humildade,
e o justo exaspera-se nos desertos
onde vagueiam leões.

William Blake


Somos as flores da primavera
De Praga que nunca desabrocharão,
Pisoteadas pelos soldados incrédulos
Detentores da bestial destruição.

E as corolas que fugiram do chão
Foram trucidadas pelas metralhadoras,
Balas cuspidas com o hálito dos demônios
Que habitam o coração do próprio homem.

Deflagraram um ritual irreversível
De nossa tola escravidão
Inventada pela própria submissão
Que não quer ver o óbvio

Que está plantado no chão
Desta nave celestial Terra,
– enfeitiçada pelo sol,
Pondo infinitas voltas em nossos corações.


Foto da invasão de Praga, por tanques soviéticos:




quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A M É R I C A








Sólo al poeta quieren dejarlo,
quíeren robarle su pirueta,
quíeren quitarle su salto mortal.

Pablo Neruda




Mirem-se nos condores – ainda há condores –
Nas geleiras, famintas pelo eterno, nos Andes.
Nesta perecível trajetória humana,
Que torna toda procura fugaz e engana.

Nos versos de Neruda ao Pacífico, a declamar:
Traz a fragrância do alto-mar,
Acalanta a pantera adormecida da alma
E espanta a inerente calma.

Quão frágeis são os rochedos da resistência
Esculpidos pelas truculentas ondas da História,
A seguir mares nunca antes desvendados
Sem os óbvios segredos decifrados.

Esse touro indomável, latente, do meu povo:
Acordarão os alquimistas para o novo.
Farão o antídoto, reinventando a alegria,
A liberdade nossa de cada dia.



terça-feira, 31 de janeiro de 2012

OUTROS DIAS VIRÃO!

"Outros outubros virão,
Outras manhãs plenas de sol e de luz"

Fernando Brant








Roubarei este teu gene, único,
E farei outro ser mais lindo!
E na desilusão de ser mortal,

A pura chama que no peito abrigo:
Ceifarei o derradeiro trigo,
Lavrando-o na madrigal noite
Preparando a terra na bruma.
No que vem armazenado,
Nos cascalhos da diligência de fogo,
Trazendo o inevitável futuro.
Voltarei pela manhã sorridente
Trazendo um pouco do eterno comigo.