A ROSA DO FIM DO MUNDO ( CÂNTICOS PROFÉTICOS )

domingo, 14 de dezembro de 2014

Plim! Plim!








No meu país
Armas andam ocultas
E, no escuro, certeiras
No poeta da esquina.

No meu país
Soldados juram, cegos,
E defendem uma bandeira
Que vem de longe e oprime.

No meu país
Não há juventude nas ruas
E se tem a brusca sensação
De se estar no estrangeiro.

No meu país
Pessoas sonham sozinhas
E de noite
Assistem à televisão:

O sonho, o poeta, o país
Ficam na mira
Do canhão computadorizado:

Plim! Plim!




       MARÍLIA, 1983

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

A procura







"Que os Sacerdotes do Corvo da aurora,
não mais, com suas vestes mortais,
com áspero som maldigam os filhos da alegria".
Pois tudo o que vive é Sagrado.

William Blake




Este tempo da procura
Do lamento e do desencontro.
Veneramos a matéria,
Cortejamos a luxúria.
Estamos sempre de partida
Antes da chegada,
A um lugar que não tem estrada
Alguma para alcançar:
Que o destino seja piedoso
Com o nosso sortilégio.






Imagem retirada da internet:



Chico Mendes:


quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Metamorfose




Tenho no olhar o passar de mil eras
Já fatigadas de tantas esperas.
E, apesar de tudo isso, tenho todos
Os sonhos de um mundo se eclodindo.

Não se apegar em nada?
Tudo é implacavelmente perecível,
Como num ranger de porta
E ver o abismo escondido.

Eras e eras se consomem
– eras que a vida tem.
Melhor coisa neste mundo
É não gostar de ninguém.

A caminhada que se faz só é injusta,
E abandonado não se apercebe foragido
De sua própria lucidez abstraída
Inventada por um Deus invisível.

Será que este destino é o fim?
Que o homem seja digno do cosmos,
Perpetuando-o e, nesse viajar,
Deixando rastros de estrelas.